O dia já faz com que meu corpo exija um pouco de descanso. Contudo, aceito meu próprio desafio de escrever este pequeno desabafo. Proponho-me colocar palavras para aliviar a angústia que surge com o conhecimento. É neste momento auspicioso da noite que me coloco como aquele que conhece a dor, o conhecedor, de uma questão fundamental particularmente.
Cyborgs não existem mais apenas em nossa imaginação: estão em todos os lados. Desde a modelo de prótese até o usuário da web, com seus perfis em redes sociais. Somos além, mas não melhores. Diferentes. O que acredito ser fundamental nisso é que: coloca-se uma questão para a humanidade.
O que nós somos?
Uma vez que as certezas acabaram, as verdades se multiplicam, guerreiam entre si, como podemos lidar com nós mesmos?
Ainda no processo de análise de alguns excertos, deparei-me com o comentário de um rapaz que sugere a distribuição de máscaras de Guy Fawkes para representar a revolução. Como ele mesmo pontua, tal ato repetiria o que acontece no filme V de Vingança, momento do filme em que os cidadãos de Londres se reúnem em frente ao parlamento, vestidos com máscaras e capas.
A cena cria a sensação de um mar de anonimato ao mesmo tempo de vingança.
Questionada pelo investigador Finch, Evey diz
"Finch: - Quem era ele?
Evey: - Ele era Edmont Dantès. Era meu pai, minha mãe, meu irmão, meu amigo. Ele era eu, era você, era todos nós."
A cena foi construída de uma maneira significativa, uma vez que constrói o personagem V como uma ideia, o que é trabalhado por todo o filme, ao juntar o diálogo com a multidão mascarada. Fica mais claro quando, após a explosão, ou seja, logo depois que o símbolo de opressão é destruído, os rostos são expostos. Finalmente, eles podem ser quem realmente são. Neste momento, podemos ver vários rostos conhecidos e que apareceram durante o filme. Vale ressaltar a aparição dos pais de Evey, de Gordon e da pequena menina, morta por um agente Dedo. Todos eles eram como V. Entretanto, o que eles procuravam? Vingança ou justiça? Em que medida separamos estes dois?
Mantendo sua qualidade transmidiática, a cena é reforçada pela música, "a música dele", a Abertura 1812 de Tchaikovsky, cuja história remete à comemoração da vitória dos russos contra Napoleão, e pelas falas de Evey citadas à cima.
A pessoa escondida pela máscara nunca seria lembrada. Funcionando como o invólucro de uma ideia, de um sentimento de toda a nação, o personagem V é a personificação do desejo de Londres.
Acredito que no quadrinho, Alan Moore construiu melhor a questão do V como uma ideia. Não pretendo dar nenhum spoiler por aqui, logo, vá ler o quadrinho!
A questão é: há uma representação de que as máscaras dariam uma identidade de revolução, de vitória, assim como acontece no ápice do filme. Não há como desvencilhar a máscara do Anonymous também que é construído a partir do filme: hackerativistas que enfrentam grandes governos ou empresas. Uma revolução espetacular, tendo, como objeto de materialização desse espetáculo, a máscara.
Resolvi chamar esta (e tantas outras que espero fazer) como "Diário de um Mestrado". Ao contrário do que se possa pensar, eu não estou começando minha pesquisa. Eu esperava ter qualificado neste semestre, mas forças maiores não possibilitaram tal façanha, postergando para o ano que vem a qualificação e a defesa.
Com o intuito de manter um controle do que ando fazendo, eu pensei em colocar no blog minhas ideias quanto à análise e interpretações de meus excertos. Por mais que eu já faça isso em cadernos, tenho esperança de que ao tentar colocar essas informações em postagens, eu passe a escrever mais no blog.
Preparo-me para ir além das análises iniciais. Como acredito já ter encontrado três recorrências interessantes, eu espero aprofundar a discussão quanto ao Anonymous. Nos excertos, encontrei diversos seguidores da página falando sobre o Anonymous, mas dificilmente direcionado a ele. Há sempre uma suposição do que ele deveria estar fazendo, de como ele deveria pensar e as razões pelas quais as coisas aconteciam. Ou seja, existem diversas representações que se misturam, contradizem ou se encontram para criar aquele que tem a verdade.
Há toda a construção do mundo dos hackers, ligada ao poder que teria, e à figura do V de Vingança, herói do povo, cuja única missão é derrubar o governo através da união do povo.