Acredito que a correção não é algo particular do meio acadêmico, mas também de outras áreas diretamente ligadas à produção escrita. Se você é escritor, pesquisador, blogueiro, roteirista, entre outros, você sabe que escrever é, acima de tudo, um processo. Pois bem, quando comecei tudo isso, eu não sabia. Posso estar falando algo muito óbvio, mas talvez ajude outras pessoas que não paravam para considerar o processo de correção e de releitura como partes da escrita.
Entenda que, se eu tinha um tema ou alguma proposta, eu sentava, decidia sobre o que iria escrever e, depois, escrevia. Após uma revisão gramatical, eu já considerava o texto pronto. Simples assim: uma única ação. Eu nunca fui uma pessoa de se debruça sobre um texto e faz uma revisão pesada. Sou impaciente e dificilmente consigo ver os erros do meu texto. Preciso reler várias vezes para tal.
No entanto, aprendi a ser mais paciente através da prática da escrita. Eu precisei parar para respirar e pensar, refletir sobre o que iria escrever e, acima de tudo, sobre o que já havia escrito. Durante o mestrado, precisei escrever e rever várias vezes o mesmo texto, o que me levou a aceitar que eu não poderia lidar com meus textos como uma ação direta e única.
Às vezes, você fica cansado de olhar para o mesmo parágrafo para ter certeza de que, para você, ele está claro, coerente e sem erros. Já foi angustiante o suficiente escrever o parágrafo em si, não concorda? Ter que olhar para ele novamente é se expor aos seus erros.
Sendo assim, aprendi que eu precisava ter a coragem de olhar para os meus erros, aceitá-los e consertá-los. Logo, o ato de escrever se tornou um processo. Seu texto precisa amadurecer e você o acompanhará nessa empreitada.
A cada releitura, você passa por uma mudança como escritor. Não há como fugir desse processo. Sei que pode até soar contraditório falar sobre processo e desenvolver uma pesquisa baseada na desconstrução derrideana. Como alguns colegas e minha orientadora já perceberam, não consigo me distanciar da lógica que me constitui.
Por pensar a escrita como processo, eu a divido para que tudo fique mais fácil. Nas fotos, eu tento mostrar o que fiz com o texto do meu mestrado. Eu consigo lidar melhor com o texto se eu separá-lo em pequenos montes. Dessa vez, eu decidi que lidaria com quinze páginas por vez, o que funciona como o sistema pomodoro. Sinto-me mais produtivo ao considerar que fiz um ou dois desses conjuntos de quinze páginas, do que pensar ter corrigido apenas trinta páginas de cento e vinte.
No geral, eu monto quatro grandes grupos: (1) o texto que precisa ser corrigido; (2) as páginas que estou corrigindo; (3) páginas corrigidas; e (4) as páginas que preciso desenvolver uma correção mais profunda, talvez modificar grande parte do texto. Enquanto lido com o grupo (2), eu uso uma caneta vermelha para marcar as partes já corrigidas. Assim, caso uma dessas páginas passe a compor o grupo (4), eu vou identificar o que precisa ser feito mais facilmente. Além disso, deixo sempre post-its com algum comentário para orientar minha futura correção.
No final de tudo, você pode ter que reler e, talvez, reescrever várias páginas do trabalho. O importante é que cada leitura agregue algo para o seu texto, deixando-o cada vez mais completo. Contudo, não fique procurando uma perfeição inalcançável: faça o seu melhor e fique satisfeito sabendo que deu duro em seu texto. Pode ter certeza de que a banca ou os pareceristas vão ter outros olhares sobre o seu texto e que farão apontamentos, até então, inimagináveis.
Esse processo me ajuda a ter uma sensação de que estou caminhando e que cheguei em algum lugar. Aquela história de pequenas metas ajuda. Eu penso o mesmo para a primeira escrita e rascunhos, mas deixarei para falar sobre isso em outro momento.
Lembre-se, então, de que a releitura e a reescrita, ou seja, a revisão, fazem parte do processo da escrita. Seu texto nunca está pronto depois da primeira escrita, assim como você não esteve pronto logo depois de nascer.
Espero ajudar alguém que, como eu, entrou nessa vida acadêmica sem ter muita noção e procura por alguma direção. Qualquer dúvida, só deixar nos comentários ou me mandar um alô no Twitter.

