sábado, 11 de abril de 2015

Tecnologia e Realidade



Após ver um vídeo no Facebook em que um rapaz seria a primeira pessoa diagnosticada com alergia de tecnologia, vejo, novamente, um dizer contra a tecnologia. Ela nos faz mal, pelo jeito. Machuca seus usuários até que, estes, percebam uma necessidade de deixá-las de lado, pois, pelo jeito, há um mundo mais saudável e seguro lá fora.

Será que precisamos deixar de lado as tecnologias digitais para poder aproveitar o que se supõe como real?





São, no mínimo, curiosas as representações de uso das novas tecnologias e, consequentemente, da geração que mais as usa. Os colegas de Arthur ficam preocupadíssimos com a alergia depois de perguntarem como o rapaz acessa o Facebook, o Snapchat ou sites pornôs e sua resposta ser: eu não acesso. Logo, as (pre)ocupações desses jovens só giram em torno de futilidades e sexo. Nada mais. No decorrer do vídeo, até mesmo um repórter pergunta a Arthur como ele lida com os sites pornôs. Parece impensável viver sem o meio pelo qual se tem acesso ao entretenimento adulto. Contudo, não era possível que ele fizesse pesquisas? Estudasse? Ou algo mais produtivo?

Em meio ao seu cotidiano, o rapaz francês se vê em pânico ao não conseguir mais mexer no computador ou usar seu smartphone. Aos poucos, ele se vê com problemas no emprego e totalmente excluído dos círculos sociais que participava. Já não consegue mais participar das festas, uma vez que se está longe dos eventos organizados dentro das redes sociais.
Vê-se, então, uma ideia de exclusão daqueles que não estão incluídos e, acredito que possamos estender, dos iletrados. Tais pontos envolvem questões muito mais complexas do que simplesmente não se ter um perfil no Facebook. Contudo, isso não está errado. A exclusão realmente vai acontecer. Ao mesmo tempo em que, se o rapaz aparecesse com seus gadgets em meio a algumas senhoras, ele estaria excluído naquela ordem. Eles não iriam interagir da mesma maneira e o poder seria exercido.
Até aí, tudo bem.

O problema começa quando um tom de “é um erro ele ser deixado de lado por não ter contato com a tecnologia” aparece. Perto do final, ele vai atrás de sua avó para conversar com alguém que não convive com a tecnologia e, assim, o vídeo tenta mostrar a possibilidade de se viver, feliz, sem toda as parafernálias que carregamos por nosso dia.

Numa outra cena, Arthur fica perplexo com a o funcionamento de um telefone antigo. Pode se fazer a leitura de que a presença extrema das tecnologias digitais faz com que não saibamos mexer com nada, nada mesmo, que não seja digital. Ela nos emburrece e, assim como Arthur, ficamos como os homens das cavernas perante o fogo recém descoberto.

Em último momento, o vídeo apresenta uma ideia utópica de equivalência de poder daqueles incluídos e excluídos: deixando-os em uma festa e todos vão interagindo, utilizando apps exteriorizados nas paredes do apartamento. No final da festa, enquanto música é tocada ao vivo (ao contrário de ser reproduzida por algum tipo de aparelho), as pessoas filmam a situação com seus celulares. Contudo, ao ver seu amigo sem mexer no celular, olhando diretamente para as pessoas tocando, outro rapaz abaixa seu celular, com uma expressão do tipo “Por que não?”.
Minha questão é: tais vídeos só querem aplicar um regime de verdade, veiculando um contradiscurso às “novas tecnologias”. Afinal, o ponto em que o vídeo chega é: todos começam a evitar a tecnologia, pois ela os machuca, assim como acontece com o primeiro rapaz. Moral? Supostamente, eles iriam se adaptar.

Claro que iriam. Essa é uma capacidades humanas mais interessantes. Contudo, tratar as novas tecnologias como algo que machuca, exclui ou agrega, só dá um lado do argumento.
A ideia de tecnologia acaba muito superficial e serve muito bem como argumento para alguém que quer recorrer a um senso comum. Muitos acreditam que “muita tecnologia faz mal” e que só afasta a pessoa da realidade. Como se esta fosse única e suprema, impossível de ser modificar ou se modificar. Todos deveriam, pelo jeito, viver na mesma realidade, na correta.
Ou será que cada um não deveria tomar a pílula vermelha para, assim, acordar de um sono e ver a realidade de cada um.

A escolha é sua.

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